Vereador reclama de resolução do PV e ameaça deixar sigla
A disputa pelo comando da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Cuiabá transformou-se em um conflagrado embate institucional e partidário dentro do Partido Verde (PV) em Mato Grosso. Alvo de uma ameaça de processo disciplinar na cúpula nacional por ter votado a favor da mudança no Regimento Interno que viabiliza a reeleição da atual presidente da Casa, Paula Calil (PL), o vereador Mário Nadaf (PV) reclamou do próprio partido.
O parlamentar cobra o respeito à autonomia do mandato em questões internas do Legislativo e antecipa que, caso a resolução punitiva seja mantida, exigirá uma carta de anuência para deixar a agremiação sem o risco de perda de mandato por infidelidade partidária.
A crise escalou após a Comissão Executiva Estadual do PV, sob o comando de José Roberto Stopa, aprovar uma resolução alinhada à direção nacional que proíbe expressamente os vereadores da sigla de votarem matérias tidas como "casuísticas" ou de integrarem bases de apoio à gestão do prefeito Abilio Brunini (PL).
Mesmo notificados e sob a expressa ameaça de perda do cargo público, Mário Nadaf e o correligionário Marcus Brito Junior, autor do Projeto de Resolução que altera o Regimento da Câmara, votaram favoravelmente à proposta. A atitude levou Stopa a acionar o Conselho de Ética e a Direção Nacional da legenda, pedindo a punição rigorosa dos parlamentares.
Em tom de desabafo e contraponto político, Nadaf classifica a resolução como uma interferência indevida na atuação parlamentar cotidiana e aponta contradição e "dois pesos e duas medidas" na condução do PV local.
“Assuntos como regimento, reeleição e composição de Mesa Diretora são temas internos da Casa, do dia a dia da Câmara. O vereador precisa e deve ter autonomia para se posicionar. Estranho muito essa cobrança agora, porque, na eleição da Mesa anterior, em que a candidata era a mesma Paula Calil, o Partido Verde liberou um membro [Alex Rodrigues], e ele foi congratulado até com 'alforria' para sair do partido. O voto dele serviu para eleger a Paula e ninguém questionou. Por que o questionamento só veio agora contra mim e contra o Marcus”, questiona Mário Nadaf.
A crise no PV expõe a complexidade das alianças locais em Cuiabá. Enquanto a executiva estadual argumenta que a fidelidade programática é inegociável, alegando que a bancada foi eleita num palanque de oposição e não pode servir de sustentação a adversários políticos, Nadaf sustenta que o debate sobre alinhamento com a Prefeitura nunca foi feito de forma transparente pela direção.
O vereador lembra que integrou a base de apoio a Lúdio Cabral (PT) desde o primeiro turno de 2024 e que a postura coercitiva adotada pela atual direção é uma "prática nova" no histórico do PV cuiabano, em que opositores ao ex-prefeito Emanuel Pinheiro atuavam com liberdade sem sofrer repreensões.
Com a representação enviada a Brasília, o vereador assegura que tentará o diálogo e o debate interno, mas estabeleceu o limite de sua permanência. Diante da ameaça contida no documento do PV de cassar mandatos por infidelidade, Nadaf afirma que, se a sigla mantiver a intransigência e recusar a autonomia do parlamentar, a única saída aceitável será a liberação consensual.
“Estou pronto para receber e obedecer ao debate interno. Agora, se não houver espaço e o partido mantiver esse entendimento, eu é que tenho que sair. Mas, da mesma forma que o PV deu a liberação para o Alex sair do partido sem prejuízo, exigirei a minha carta de anuência para sair também”, pontuou o vereador.
O impasse agora aguarda o posicionamento do Conselho de Ética Nacional do PV, que decidirá se abre ou não o processo de expulsão com pedido de cadeira na Justiça Eleitoral ou se concede a liberação amigável exigida pelo parlamentar.