Entre buracos e filas na saúde, Câmara aprova Dia do Patriota Calendário municipal ganha novo feriado moral, problemas seguem sem data
Enquanto Cuiabá convive com desafios bem reais, buracos nas ruas, filas na saúde, transporte precário e bairros esperando infraestrutura básica, a Câmara Municipal encontrou tempo e energia para aprovar um novo “feito histórico”: a criação do Dia Municipal do Patriota, a ser celebrado em 6 de setembro.
O projeto, de autoria do vereador policial federal Rafael Ranalli (PL), foi aprovado por 15 votos e agora segue para sanção do Executivo. A justificativa fala em fortalecer civismo, amor à pátria, tradição, família e ordem. Tudo muito bonito no papel. A dúvida que fica é outra: o que exatamente isso muda na vida prática do cuiabano?
Vai reduzir fila em UPA?
Vai melhorar o transporte coletivo?
Vai ajudar a resolver o caos da saúde ou da educação?
Ou apenas engordar o calendário com mais uma data simbólica?
A escolha do 6 de setembro, véspera da Independência, também não parece exatamente neutra. A data coincide com o episódio da facada sofrida por Jair Bolsonaro em 2018, transformado por apoiadores em um marco político do bolsonarismo. Não por acaso, durante a votação, o próprio autor comemorou dizendo que “o dia do Bolsonaro passou”, em áudio captado pela transmissão da sessão.
Ou seja, enquanto a cidade enfrenta problemas estruturais que exigem debate sério e propostas concretas, parte do Legislativo parece mais preocupada em carimbar símbolos ideológicos no calendário oficial.
Enquanto isso, o salário do vereador continua caindo pontualmente, ao contrário da manutenção da sua rua. Mas não reclame; agora você tem um dia oficial para ser patriota enquanto espera o ônibus, desvia dos buracos e enfrenta filas nas Upas.
Parabéns, vereador! O senhor realmente transcendeu a função. Com um projeto de tamanha relevância existencial, o salário cai na conta com a consciência de quem salvou a cidade. Se este for o seu único ato no ano, sinta-se realizado: o senhor já justificou cada centavo do contribuinte e provou que Cuiabá não seria a mesma sem a sua 'iluminada' presença.