Trump ganha as agências, mas perde o dinheiro Distinção parece jurídica, mas, na verdade, mede-se em juros, dólares e confiança

Global News Space 29/06/2026 19:08

Em duas decisões tomadas no mesmo dia, a Suprema Corte dos Estados Unidos ampliou o poder de Donald Trump sobre os reguladores, mas negou o mesmo poder sobre o Federal Reserve. A distinção parece jurídica, mas, na verdade, mede-se em juros, dólares e confiança.

Durante 91 anos, um presidente dos Estados Unidos não podia demitir livremente quem fiscalizava os grandes negócios. Nesta segunda-feira (29), essa proteção acabou.

Ao mesmo tempo, a Suprema Corte impediu Donald Trump de afastar uma dirigente do Federal Reserve. Os vigilantes das empresas ficaram expostos; os guardiões do dólar, protegidos.

A aparente contradição revela uma escolha muito concreta. A Corte aceitou que a Casa Branca controle mais diretamente quem decide sobre monopólios, fusões e defesa do consumidor, mas recusou que o presidente possa alterar, por simples vontade política, a instituição que determina o preço do dinheiro.

José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Trump ganha as agências, mas perde o dinheiro

Distinção parece jurídica, mas, na verdade, mede-se em juros, dólares e confiança

Em duas decisões tomadas no mesmo dia, a Suprema Corte dos Estados Unidos ampliou o poder de Donald Trump sobre os reguladores, mas negou o mesmo poder sobre o Federal Reserve. A distinção parece jurídica, mas, na verdade, mede-se em juros, dólares e confiança.

Durante 91 anos, um presidente dos Estados Unidos não podia demitir livremente quem fiscalizava os grandes negócios. Nesta segunda-feira (29), essa proteção acabou.

Ao mesmo tempo, a Suprema Corte impediu Donald Trump de afastar uma dirigente do Federal Reserve. Os vigilantes das empresas ficaram expostos; os guardiões do dólar, protegidos.

A aparente contradição revela uma escolha muito concreta. A Corte aceitou que a Casa Branca controle mais diretamente quem decide sobre monopólios, fusões e defesa do consumidor, mas recusou que o presidente possa alterar, por simples vontade política, a instituição que determina o preço do dinheiro.

Essa diferença pode valer bilhões. Uma agência reguladora mais obediente pode facilitar negócios, reduzir processos e agradar às bolsas de valores no curto prazo. Um banco central obediente, porém, pode destruir em poucas semanas a confiança construída durante décadas.

A história americana já conhece esse risco. Nos anos 1970, Richard Nixon pressionou o presidente do Federal Reserve, Arthur Burns, por uma política monetária favorável ao crescimento.

A inflação tornou-se depois o grande problema econômico da década, obrigando Paul Volcker a impor juros duríssimos para recuperar a credibilidade perdida. A experiência ajudou a fixar uma regra silenciosa: presidentes podem desejar dinheiro barato; não devem controlar quem decide o seu preço.

No Brasil, esse conflito tem sujeito equivalente: Gabriel Galípolo. Lula o escolheu para presidir o Banco Central e deseja juros mais baixos para aliviar o crédito, estimular o consumo e acelerar a economia.

José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Trump ganha as agências, mas perde o dinheiro

Distinção parece jurídica, mas, na verdade, mede-se em juros, dólares e confiança

Em duas decisões tomadas no mesmo dia, a Suprema Corte dos Estados Unidos ampliou o poder de Donald Trump sobre os reguladores, mas negou o mesmo poder sobre o Federal Reserve. A distinção parece jurídica, mas, na verdade, mede-se em juros, dólares e confiança.

Durante 91 anos, um presidente dos Estados Unidos não podia demitir livremente quem fiscalizava os grandes negócios. Nesta segunda-feira (29), essa proteção acabou.

Ao mesmo tempo, a Suprema Corte impediu Donald Trump de afastar uma dirigente do Federal Reserve. Os vigilantes das empresas ficaram expostos; os guardiões do dólar, protegidos.

A aparente contradição revela uma escolha muito concreta. A Corte aceitou que a Casa Branca controle mais diretamente quem decide sobre monopólios, fusões e defesa do consumidor, mas recusou que o presidente possa alterar, por simples vontade política, a instituição que determina o preço do dinheiro.

Essa diferença pode valer bilhões. Uma agência reguladora mais obediente pode facilitar negócios, reduzir processos e agradar às bolsas de valores no curto prazo. Um banco central obediente, porém, pode destruir em poucas semanas a confiança construída durante décadas.

A história americana já conhece esse risco. Nos anos 1970, Richard Nixon pressionou o presidente do Federal Reserve, Arthur Burns, por uma política monetária favorável ao crescimento.

A inflação tornou-se depois o grande problema econômico da década, obrigando Paul Volcker a impor juros duríssimos para recuperar a credibilidade perdida. A experiência ajudou a fixar uma regra silenciosa: presidentes podem desejar dinheiro barato; não devem controlar quem decide o seu preço.

No Brasil, esse conflito tem sujeito equivalente: Gabriel Galípolo. Lula o escolheu para presidir o Banco Central e deseja juros mais baixos para aliviar o crédito, estimular o consumo e acelerar a economia.

Galípolo já conduziu três cortes seguidos, levando a Selic a 14,25% em junho, mas continua agindo com cautela diante da inflação, da economia aquecida e dos estímulos do próprio governo.

Desde 2021, o presidente e os diretores do Banco Central têm mandatos fixos precisamente para poderem resistir à pressão de quem os nomeou. A autonomia começa quando o escolhido precisa dizer ao seu padrinho político aquilo que ele não gostaria de ouvir.

Nos Estados Unidos, Donald Trump ganhou nesta semana, portanto, uma parte importante da batalha pelo controle absoluto do Estado. Poderá substituir dirigentes de agências que investigam empresas, regulam mercados e limitam concentrações econômicas; e há quem considere isso um exagero.

Mas ainda não será desta vez que vai transformar o Federal Reserve num help desk financeiro da Casa Branca.