Brasil não tem arsenal da China para responder EUA na mesma moeda

Global News Space 16/07/2026 13:31

Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elevou tarifas contra a China, Pequim respondeu na mesma moeda.

Em alguns casos, as sobretaxas passaram de 100%, chegando a 125% em 2025 sobre produtos americanos como soja, carne suína e gás natural liquefeito.

À primeira vista, parece uma receita pronta: tarifa de um lado, tarifa do outro. Mas a comparação com o Brasil é enganosa.

A China conseguiu sustentar essa estratégia porque reúne um arsenal com condições particulares que o Brasil simplesmente não tem. A primeira é escala.

Como maior comprador mundial de commodities agrícolas, Pequim conseguiu substituir boa parte da soja americana pela brasileira sem desabastecer seu mercado.

Quem perdeu espaço foram os produtores dos Estados Unidos; quem ganhou foi justamente o Brasil.

A segunda diferença está na estrutura do comércio. A China importa dos Estados Unidos principalmente commodities que podem ser compradas de outros fornecedores.

Já exporta para os americanos manufaturados de baixo custo, cuja substituição é lenta e cara. Na prática, parte da conta acaba recaindo sobre o consumidor americano.

Há ainda um terceiro fator: o peso do Estado. O governo chinês dispõe de instrumentos para subsidiar empresas, compensar setores afetados e redirecionar investimentos, além de controlar o câmbio e funcionar como uma “holding” do setor produtivo. É uma capacidade de intervenção muito maior do que a disponível no Brasil.

E é justamente aí que mora o problema de uma eventual retaliação brasileira.

A pauta de importações do Brasil é praticamente o inverso da chinesa.

O país compra dos Estados Unidos produtos de alto valor agregado e difíceis de substituir. Entre eles, diesel, fertilizantes, medicamentos, componentes aeronáuticos, máquinas de precisão, equipamentos médicos e semicondutores.

Taxar esses produtos significa encarecer insumos fundamentais para a própria economia brasileira.

O diesel importado, por exemplo, ajuda a abastecer o transporte que leva a produção agrícola aos portos. Se ele fica mais caro, sobe o custo logístico justamente para um agronegócio que já perderia mercado com as tarifas americanas.

Além disso, o possível impacto de uma alta no principal insumo da cadeia logística brasileira, dada a dependência do modal rodoviário, promete impactar ainda mais uma inflação já desancorada, obrigando o Banco Central a manter juros em patamares restritivos — impactando o nível de atividade do país.

O mesmo vale para fertilizantes e defensivos. O Brasil continua dependente das importações para manter sua produção agrícola. Sobretaxá-los seria aumentar o custo da safra nacional.
Na indústria, o efeito também seria delicado. A Embraer depende de motores, aviônicos e outros componentes produzidos nos Estados Unidos.

Ou seja, uma retaliação poderia atingir um dos poucos setores brasileiros de alta tecnologia justamente num momento em que a própria Embraer ficou de fora da tarifa americana por causa da interdependência entre as cadeias produtivas.

Há ainda os medicamentos e insumos farmacêuticos. A substituição é lenta, muitas vezes inexistente no curto prazo, com impacto potencial sobre preços e acesso da população.

Tudo isso aumenta o risco de um efeito catastrófico. Em vez de pressionar os Estados Unidos, a retaliação poderia alimentar a inflação brasileira, elevar custos para o agronegócio e para a indústria e dificultar ainda mais o trabalho do Banco Central no controle dos preços.

Além disso, existe uma diferença de poder de barganha. A China representa um mercado consumidor gigantesco. O Brasil, embora relevante, não tem volume de compras suficiente para impor perdas capazes de mudar sozinho a estratégia comercial de Washington.

Além disso, as retaliações aconteceriam no âmbito de uma enfraquecida OMC, a Organização Mundial do Comércio, atravancando processos e permitindo uma resposta mais dura dos Estados Unidos.

No fim das contas, a principal lição da guerra comercial entre Estados Unidos e China é que retaliar só funciona quando há escala e alternativas de fornecimento.

A China tinha essas duas condições. O Brasil, em muitos dos produtos que importa dos Estados Unidos, ainda não. Por isso, copiar a estratégia chinesa pode produzir um resultado oposto: mais custo para a economia brasileira do que pressão efetiva sobre os americanos.

Pelo contrário.

As negociações entre Brasil e Estados Unidos foram contaminadas por aspectos políticos, não técnicos. Se a justificativa norte-americana de recorrer à suposta existência de “práticas anticompetitivas” para punir o Brasil, o país perde uma oportunidade de dar um choque de liberalização em uma economia ainda fechada.

O Brasil impõe barreiras não tarifárias a 86,4% das suas importações, bem acima da média mundial de 72%.
É o que mostram dados de um estudo do banco BTG Pactual.

Além da possibilidade de responder de forma técnica, o Brasil perde, respondendo com mais politização uma discussão já contaminada, uma oportunidade de dinamizar sua economia em um momento que Donald Trump atenta contra um mundo globalizado, integrado e de comércio livre.