Flávia Moretti completa 573 dias à frente da Prefeitura; veja promessas, entregas e embates Em 573 dias de mandato, prefeita enfrenta crise financeira, tensão política e desafios históricos

Global News Space 27/07/2026 14:16

Eleita em 2024 com a promessa de romper um ciclo político de décadas e resolver a crise do abastecimento de água, a prefeita Flávia Moretti (PL) completa 573 dias de mandato nesta segunda-feira (27.07), em Várzea Grande. Desde que assumiu o cargo, em 1º de janeiro de 2025, no Ginásio Fiotão, a gestora administra um município marcado por problemas históricos no fornecimento de água, elevado endividamento, dificuldades fiscais e uma estrutura pública que, segundo a própria prefeita, precisava ser reorganizada.

O cenário foi marcado, principalmente no primeiro semestre de 2026, por uma sequência de desgastes políticos. Flávia enfrentou embates com a Câmara Municipal, viu projetos considerados prioritários ficarem travados no Legislativo, recorreu ao Judiciário para garantir votações, rompeu politicamente com o ex-vice-prefeito Tião da Zaeli, cobrou maior apoio do próprio Partido Liberal e passou a administrar uma crise financeira que culminou na decretação de calamidade fiscal e financeira do Município e do Departamento de Água e Esgoto (DAE).

Mesmo diante desse contexto, a gestão sustenta que conseguiu reorganizar parte das contas públicas, destravar obras, ampliar vagas na educação, iniciar a reestruturação do DAE e construir uma solução institucional para o abastecimento de água. O saneamento, considerado o principal desafio da cidade, também aparece como o maior legado pretendido pela prefeita.

 A ÁGUA CONTINUA SENDO O MAIOR DESAFIO

Nenhum tema marcou tanto a campanha e o governo de Flávia Moretti quanto o abastecimento de água. No Plano de Governo apresentado durante a eleição, o saneamento básico aparece como prioridade. O documento reconhece que as deficiências no abastecimento e no tratamento de esgoto representam o principal gargalo estrutural de Várzea Grande e propõe uma ampla reorganização do DAE, com diagnóstico técnico, modernização da gestão, ampliação da infraestrutura e possibilidade de participação da iniciativa privada.

Ao assumir a Prefeitura, a nova gestão encontrou um sistema classificado como financeiramente inviável e operacionalmente defasado. Nos primeiros meses, foram adotadas medidas emergenciais, entre elas a criação de um Comitê de Crise, a contratação da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) para a elaboração de estudos técnicos, a abertura do Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI) para uma futura concessão do sistema e a decretação de calamidade em razão da crise hídrica.

Apesar das medidas, o problema persistiu durante todo o primeiro ano de governo. Moradores continuaram relatando interrupções frequentes no fornecimento, baixa pressão na rede e longos períodos sem água em diferentes bairros. A administração argumenta que a situação é resultado de décadas de falta de investimentos e que a solução exige intervenções estruturais incompatíveis com medidas de curto prazo.

TAC MARCA NOVA ETAPA PARA RESOLVER A ÁGUA

Depois de quase um ano e meio de estudos técnicos, disputas administrativas e debates sobre o futuro do DAE, a gestão alcançou, em julho deste ano, aquele que pode ser considerado seu maior avanço institucional na área. O governador Otaviano Pivetta (Republicanos), a prefeita Flávia Moretti, o Ministério Público de Mato Grosso e o Tribunal de Contas assinaram o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) “Aliança pela Água”, que prevê aproximadamente R$ 60 milhões em investimentos para a reestruturação do sistema de abastecimento do município.

O acordo estabelece um plano emergencial de obras, aquisição de equipamentos, reorganização operacional da autarquia e criação de um comitê executivo para acompanhar a execução das medidas durante os próximos 12 meses. Embora a assinatura do TAC represente um dos principais avanços desde o início do mandato, a regularização definitiva do abastecimento ainda não foi alcançada. Na prática, a principal promessa de campanha permanece em execução.

CRISE FINANCEIRA MUDOU PRIORIDADES DA GESTÃO

A situação financeira encontrada pela nova administração também passou a influenciar diretamente a condução do governo. Logo nos primeiros meses, Flávia afirmou que herdou um elevado passivo financeiro da administração anterior. Segundo a prefeita, havia milhões de reais em precatórios, débitos tributários, obrigações previdenciárias e contratos pendentes, o que reduziu significativamente a capacidade de investimento da Prefeitura.

Durante 2026, a situação se agravou após decisões judiciais bloquearem recursos municipais para o pagamento de precatórios. Posteriormente, a Prefeitura decretou calamidade financeira e fiscal tanto no Município quanto no DAE, alegando comprometimento da capacidade de execução orçamentária. A crise chamou a atenção do Tribunal de Contas do Estado, que admitiu a instalação de uma Mesa Técnica para discutir o déficit estrutural das finanças municipais, envolvendo precatórios, passivo previdenciário, fluxo de caixa e sustentabilidade fiscal da Prefeitura.

Para a administração, a reorganização das contas passou a ser condição indispensável para o cumprimento de parte significativa do Plano de Governo. Ao mesmo tempo, a oposição e parte dos vereadores passaram a cobrar resultados mais rápidos, principalmente em áreas como saúde, limpeza urbana e abastecimento de água.

DÍVIDAS DO DAE AMPLIAM DEBATE

A situação financeira do Departamento de Água e Esgoto também ganhou destaque ao longo do mandato. Dados divulgados pela própria autarquia apontaram que o passivo total com a Energisa ultrapassa R$ 590 milhões. A maior parte da dívida foi transformada em precatórios ao longo de administrações anteriores.

Ao mesmo tempo, o DAE informou que, entre janeiro de 2025 e julho de 2026, acumulou aproximadamente R$ 18 milhões em contas de energia elétrica ainda não quitadas, evidenciando que a crise financeira da autarquia permaneceu durante a atual gestão. A Prefeitura argumenta que o tamanho do passivo histórico impede soluções imediatas e reforça a necessidade da reestruturação em andamento.

CRISE POLÍTICA 

Se a crise da água se consolidou como o principal desafio administrativo da gestão, a relação entre a Prefeitura e a Câmara Municipal se tornou um dos maiores obstáculos políticos enfrentados por Flávia Moretti. Durante praticamente todo o primeiro semestre de 2026, projetos considerados estratégicos pelo Executivo encontraram resistência no Legislativo. O cenário gerou instabilidade institucional e interferiu diretamente na condução da administração.

O episódio de maior repercussão ocorreu quando a prefeita encaminhou à Câmara um projeto que ampliava de 5% para 20% o limite de abertura de créditos suplementares do orçamento municipal. Segundo a Prefeitura, a medida permitiria destravar aproximadamente R$ 56,6 milhões destinados principalmente à Saúde, ao Departamento de Água e Esgoto, à Secretaria de Serviços Públicos, à Secretaria de Meio Ambiente e ao Previvag.

Apesar de 14 dos 23 vereadores terem protocolado pedido para a realização de uma sessão extraordinária, o presidente da Câmara, Wanderley Cerqueira (MDB), indeferiu a solicitação. Diante da negativa, a Prefeitura recorreu ao Judiciário. A 2ª Vara Especializada da Fazenda Pública de Várzea Grande determinou que o presidente da Câmara convocasse a sessão extraordinária em até 24 horas, sob pena de multa diária.

Na decisão, o juiz Francisco Ney Gaíva afirmou que a demora na apreciação dos projetos poderia comprometer a prestação de serviços públicos essenciais e agravar a situação financeira do Município. Dias depois, a sessão foi realizada e o projeto acabou aprovado por unanimidade, elevando inclusive o percentual de suplementação para 30%. Para a Prefeitura, a aprovação representou um alívio financeiro importante e permitiu maior flexibilidade na execução do orçamento.O episódio, entretanto, evidenciou o nível de desgaste entre o Executivo e o Legislativo.

RELAÇÃO COM VEREADORES FOI MARCADA POR TENSÃO

Os embates entre os dois Poderes não ficaram restritos à discussão sobre o orçamento. Entre o segundo semestre de 2025 e o primeiro de 2026, diversos projetos enviados pela Prefeitura enfrentaram questionamentos técnicos, pedidos de retirada de pauta e discussões sobre impacto financeiro. Em algumas ocasiões, vereadores alegaram ausência de estudos suficientes ou divergiram da forma como determinadas matérias chegaram ao Legislativo.

Já a Prefeitura passou a sustentar que parte das dificuldades administrativas decorria justamente da demora na tramitação de projetos considerados prioritários. O ambiente de tensão se intensificou durante a discussão da reforma administrativa e da criação de novos cargos na estrutura da Secretaria Municipal de Assistência Social.

A proposta previa a reorganização administrativa, a criação de uma Secretaria Adjunta e a ampliação da estrutura de cargos comissionados. O projeto gerou forte reação de vereadores, principalmente em razão do impacto financeiro previsto na folha de pagamento. Parlamentares defenderam que matérias relacionadas ao reajuste dos servidores fossem analisadas separadamente da criação dos novos cargos.

O Tribunal de Contas do Estado também apontou inconsistências técnicas na proposta, como ausência de memória de cálculo e falhas na estimativa do impacto orçamentário. O episódio ampliou ainda mais o desgaste entre a Prefeitura e a Câmara.

ROMPIMENTOS POLÍTICOS AUMENTARAM ISOLAMENTO

As dificuldades da prefeita também ultrapassaram os limites do Legislativo. Durante o primeiro semestre de 2026, a relação entre Flávia Moretti e o ex-vice-prefeito Tião da Zaeli sofreu forte desgaste. Embora ambos tenham sido eleitos na mesma chapa em 2024, divergências administrativas e políticas passaram a ser expostas publicamente.

Paralelamente, a prefeita também passou a cobrar maior participação do próprio Partido Liberal (PL). Em entrevistas concedidas durante o período, afirmou que o partido participou da campanha eleitoral, mas não contribuiu para garantir governabilidade após a posse. Segundo ela, a direção partidária permaneceu distante durante momentos considerados críticos da administração, incluindo os conflitos com Tião da Zaeli, as dificuldades financeiras e a tensão institucional com a Câmara Municipal.

As declarações tornaram público um desgaste que até então ocorria nos bastidores e contribuíram para reforçar a percepção de isolamento político da prefeita. Tião da Zaeli renunciou ao cargo de vice-prefeito de Várzea Grande em 31 de março de 2026.

EDUCAÇÃO CONCENTRA AS PRINCIPAIS ENTREGAS

Apesar das dificuldades políticas, a educação se consolidou como uma das áreas com maior número de entregas da gestão. O Plano de Governo previa a ampliação de vagas, o fortalecimento das creches, a melhoria da infraestrutura escolar, a implantação gradual do ensino em tempo integral e a valorização dos profissionais da educação.

Até julho de 2026, a Prefeitura contabilizava pelo menos 788 novas vagas criadas nos primeiros meses da administração e a entrega de quatros Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs), incluindo unidades aguardadas pela população havia mais de uma década.

Outras unidades seguem em construção, como o CMEI do bairro Riacho Verde. A gestão também promoveu recomposição salarial para profissionais da educação e realizou investimentos na recuperação da infraestrutura de diversas escolas municipais. Embora a implantação do ensino em tempo integral ainda não tenha sido efetivada em larga escala, a ampliação da rede infantil representa uma das principais entregas do governo até o momento.

SAÚDE APRESENTA AVANÇOS, MAS DESAFIOS PERMANECEM

Na saúde, a administração concentrou esforços na reorganização da rede municipal. Entre as principais medidas estão a adesão ao programa estadual Fila Zero, a ampliação do atendimento especializado, a contratação de profissionais e o início das tratativas para a implantação do futuro Hospital Municipal. Também foram iniciadas ações relacionadas à construção da nova maternidade de Várzea Grande.

Apesar dos avanços, a área continua sendo alvo frequente de reclamações. Persistem denúncias relacionadas à demora em atendimentos, à falta de medicamentos, às dificuldades na realização de exames especializados e à sobrecarga nas unidades básicas. Assim como ocorre na questão da água, a Prefeitura argumenta que enfrenta problemas estruturais acumulados ao longo de décadas e que parte das soluções depende da recuperação financeira do Município.

OBRAS E INFRAESTRUTURA 

A infraestrutura também registrou crescimento durante os primeiros 573 dias de mandato. Segundo balanços divulgados pela Prefeitura, a administração contabiliza mais de 67 obras estruturantes entre entregues, em execução ou anunciadas. As ações envolvem educação, mobilidade urbana, pavimentação, drenagem, equipamentos públicos e melhorias em bairros.

Também foram anunciados investimentos superiores a R$ 15 milhões em recapeamento e recuperação de vias. Na regularização fundiária, a gestão manteve programas voltados à entrega de títulos definitivos e à urbanização de bairros. Embora parte das metas previstas no Plano de Governo ainda esteja em andamento, a infraestrutura aparece como uma das áreas com maior volume de execução durante os primeiros 573 dias de mandato.

O QUE AINDA NÃO SAIU DO PAPEL

Apesar dos avanços em educação, infraestrutura, reorganização financeira e na construção de soluções para o abastecimento de água, uma parcela significativa das propostas apresentadas durante a campanha ainda permanece em fase de planejamento, estudos ou execução inicial.

O Plano de Governo elaborado por Flávia Moretti foi concebido como um documento de longo prazo, estruturado em mais de 50 eixos temáticos que abrangem desenvolvimento econômico, mobilidade urbana, saúde, educação, assistência social, segurança, meio ambiente e gestão pública. Grande parte dessas propostas depende de investimentos elevados, alterações legislativas, parcerias com os governos estadual e federal e estabilidade financeira do Município.

Entre os compromissos que ainda não registram conclusão estão justamente aqueles considerados mais estruturantes. Na saúde, a Prefeitura iniciou estudos e articulações para a construção do Hospital Municipal e da nova maternidade, mas os projetos permanecem em fase preparatória. Também não houve implantação em larga escala de propostas como o “Corujão da Saúde”, a expansão das unidades de pronto atendimento prevista no plano e a ampliação integral da rede especializada.

Na educação, apesar da entrega de creches e da ampliação de vagas, a implantação do ensino em tempo integral ainda ocorre de forma limitada, distante da proposta apresentada durante a campanha. Na economia, várias iniciativas continuam concentradas no campo do planejamento.

Projetos como o Complexo Industrial Têxtil, o fortalecimento da agroindustrialização, a implantação do Parque Tecnológico em funcionamento pleno, programas estruturados de primeiro emprego, a expansão do microcrédito, incentivos econômicos em larga escala e a consolidação de novos polos industriais ainda não apresentaram resultados mensuráveis.

Também permanecem sem conclusão propostas relacionadas à modernização da previdência municipal, à ampliação da política habitacional, à regularização fundiária em grande escala, à implantação de centros especializados para idosos, famílias atípicas e população em situação de rua, além do fortalecimento de políticas específicas voltadas à igualdade racial, comunidades quilombolas e população LGBTQIA+.

Na mobilidade urbana, embora a Prefeitura tenha executado recapeamentos e recuperado vias, temas como a reorganização completa do transporte coletivo e soluções estruturantes para o trânsito permanecem pendentes.

ÁGUA CONTINUA SENDO O PRINCIPAL TERMÔMETRO

Se há um tema capaz de resumir os primeiros 573 dias da gestão de Flávia Moretti, esse tema continua sendo a água. Foi em torno dessa promessa que a campanha eleitoral foi construída.

Foi por causa dela que a administração decretou calamidade, iniciou estudos técnicos, contratou consultorias, buscou apoio do Tribunal de Contas, recorreu ao Governo do Estado e firmou um Termo de Ajustamento de Conduta com previsão de R$ 60 milhões em investimentos. Ao mesmo tempo, é justamente nessa área que permanecem as maiores cobranças da população.

Mesmo reconhecendo que o sistema foi herdado em situação crítica e que sua recuperação exige investimentos de grande porte, a regularização definitiva do abastecimento ainda não foi alcançada. Por isso, a solução da crise hídrica continua sendo o principal indicador pelo qual a gestão tende a ser avaliada até o fim do mandato.

DOIS ANOS E MEIO DECISIVOS

Com aproximadamente dois anos e cinco meses ainda pela frente, Flávia Moretti entra em uma nova fase do governo. Ao contrário do primeiro ano, marcado pelo diagnóstico financeiro, pela reorganização administrativa e pelo enfrentamento das crises herdadas, o período que se inicia tende a ser medido principalmente pela capacidade de transformar planejamento em entregas concretas.

Parte importante das ações previstas depende diretamente da recuperação da capacidade financeira do Município, da continuidade do TAC firmado para a reestruturação do DAE, da conclusão do processo de concessão da autarquia e da manutenção do diálogo com os órgãos de controle. Também será decisiva a relação com a Câmara Municipal.

Os episódios registrados ao longo de 2026 demonstraram que a governabilidade se tornou um dos principais desafios políticos da administração. A aprovação dos créditos suplementares após decisão judicial evidenciou que impasses institucionais podem comprometer o andamento de projetos considerados prioritários pelo Executivo.

Por outro lado, a aprovação unânime da matéria mostrou que, em determinadas circunstâncias, Executivo e Legislativo conseguem construir consensos quando há convergência sobre a necessidade das medidas.

UM GOVERNO ENTRE REORGANIZAÇÃO E EXPECTATIVA

Ao completar 573 dias de mandato, a gestão de Flávia Moretti apresenta um cenário de contrastes. Há entregas concretas na educação, em obras públicas, infraestrutura, valorização de servidores, reorganização administrativa e preparação de projetos estruturantes. Também houve avanços na construção de soluções institucionais para problemas históricos, como a crise do abastecimento de água e a situação financeira do Município.

Por outro lado, as propostas de maior impacto social e econômico, especialmente aquelas relacionadas ao saneamento, à saúde, ao desenvolvimento econômico e à transformação estrutural da cidade, ainda não produziram todos os resultados esperados pela população.

O balanço parcial da administração indica que a prefeita avançou em parte das diretrizes previstas em seu Plano de Governo, sobretudo nas áreas de gestão, educação e infraestrutura. Entretanto, os compromissos que motivaram sua eleição, especialmente a solução definitiva da crise da água e a melhoria dos serviços públicos essenciais, continuam entre os maiores desafios da administração.

Com mais da metade do mandato ainda pela frente, os próximos meses deverão indicar se as medidas de reorganização financeira, os investimentos anunciados e os acordos firmados com outras instituições serão suficientes para transformar projetos e planejamentos em resultados concretos para a população de Várzea Grande.