Irã tenta fazer Trump ceder pelo relógio eleitoral Analistas avaliam que conflito tende a se arrastar e que Trump enfrenta "cilada" diante da posição estratégica do Irã no Estreito de Ormuz

Global News Space 15/07/2026 14:05

Estados Unidos e Irã intensificaram os confrontos, na terça-feira (14), marcada pelo retorno oficial do bloqueio americano a portos iranianos no Golfo Pérsico.

A última rodada de ataques americanos teve início cerca de uma hora antes da retomada do bloqueio, concentrando-se na região do Estreito de Ormuz, em sequência que já soma quatro noites consecutivas de operações militares.

O bloqueio voltou a vigorar sem a proposta do presidente americano, Donald Trump, de cobrar taxas de navios escoltados pela Marinha americana. A ideia foi descartada pelo próprio republicano nesta terça-feira (14), que afirmou não gostar da ideia de pedágios para a navegação na região.

Em seu lugar, sinalizou que países árabes compensarão Washington pelos gastos no conflito por meio de investimentos nos Estados Unidos, sem oferecer maiores detalhes.

Ataques se expandem para além do Kuwait

O Kuwait relatou, horas antes do reinício do bloqueio, que ataques iranianos atingiram um navio da marinha do país, deixando quatro feridos. Ao todo, o Kuwait afirmou ter interceptado um míssil balístico, cinco mísseis de cruzeiro e 33 drones.

Dois oficiais americanos confirmaram à CNN que os Estados Unidos utilizaram mísseis Patriot para interceptar os ataques contra o Kuwait, fragilizando ainda mais um estoque que estimativas apontam ter sido reduzido em quase metade durante o período mais intenso do conflito. Além do Kuwait, o Bahrein também passou a ser alvo de forças iranianas.

O professor da Escola de Guerra Naval Leonardo Mattos avaliou que a Guarda Revolucionária iraniana "esticou demais a corda" ao atacar navios mercantes que trafegavam fora da rota determinada pelo Irã no Estreito de Ormuz.

"Os ataques que a Guarda Revolucionária efetuou contra navios mercantes foram a gota d'água para o Trump tomar uma iniciativa", afirmou Mattos.

Ele destacou ainda que Trump comunicou ao Congresso americano o encerramento do cessar-fogo e a retomada dos ataques, e que, em entrevista à Fox News, sinalizou que as operações prosseguirão nos próximos dias, incluindo alvos de infraestrutura de energia e pontes iranianas.

Irã mantém cartas na manga, incluindo o Estreito de Bab el-Mandeb

O analista de Internacional da CNN Lourival Sant'Anna destacou que a Guarda Revolucionária tem cumprido seu objetivo estratégico de manter o controle sobre o Estreito de Ormuz, atacando navios que trafegavam fora da rota reconhecida pelo Irã.

Segundo ele, o Irã ainda possui uma carta importante que não utilizou: a possibilidade de acionar os Houthis para retomar ataques a navios no Mar Vermelho, no Estreito de Bab el-Mandeb.

O analista explicou que um avião iraniano que retornava a Sanaa com comandantes dos Houthis, que haviam participado de funerais do ex-líder supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei, foi alvo de disparos das forças armadas do Iêmen apoiadas pela Arábia Saudita, sendo obrigado a pousar em área controlada pelos Houthis. Esse episódio estaria motivando o grupo a acenar com a possibilidade de voltar a atacar navios no Mar Vermelho.

Lourival lembrou que os ataques anteriores dos Houthis na região forçaram cargueiros a dar a volta pelo Cabo da Boa Esperança — percurso cerca de 6 mil quilômetros mais longo, que adiciona de 10 a 15 dias ao trajeto, encarece o frete e reduz a disponibilidade de contêineres e navios no mundo.

"Essa possibilidade é real e muito perigosa", alertou Leonardo Mattos, lembrando que em 2023 os Houthis afundaram quatro navios mercantes e atingiram mais de 100 embarcações naquela região.

O professor acrescentou que, caso os Houthis retomem os ataques no Mar Vermelho, também seria prejudicada a alternativa que a Arábia Saudita utiliza para escoar seu petróleo por meio de um oleoduto leste-oeste com saída para aquela região.

Analistas veem Trump em "cilada" estratégica

Lourival Sant'Anna avaliou que Trump se encontra numa posição de grande dificuldade. "Trump terá de ceder. É o Trump que tem de ceder, não é o Irã. O Irã está numa posição de força", afirmou o analista.

O analista argumentou que, por mais que os Estados Unidos bombardeiem alvos iranianos, a estratégia já se mostrou ineficaz, e que a situação tende a se arrastar até as eleições de meio de mandato, em novembro, com alternâncias entre narrativas de pacificação e de escalada.

O preço do petróleo chegou a bater US$ 87 durante o dia, recuando levemente para US$ 85 ao final da sessão — reflexo direto das tensões na região.

Leonardo Mattos apontou ainda uma divisão interna no Irã, com uma ala mais moderada, representada por figuras como presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, e o presidente do parlamento, Mohamed Bagher Ghalibaf, tentando negociar com os Estados Unidos, enquanto setores mais radicais buscam tirar o máximo proveito da vantagem geográfica iraniana no Estreito de Ormuz.

O professor destacou também uma novidade registrada na véspera: o primeiro ataque de drone naval americano contra alvos iranianos, com imagens que circularam nas redes sociais mostrando drones dos EUA atingindo a base naval de Bandar Abbas.

Outro ponto de atenção levantado pelos analistas é o fato de Israel ainda não ter ingressado nessa nova fase de ataques, embora o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, tenha declarado que o país está pronto para voltar a atacar o Irã caso seja atacado.